Cooperando com Lixo

            

A existência de milhares de catadores de lixo, resultado do desemprego e da miséria, é um grande desafio da sociedade brasileira. Projetos de inclusão social baseados na coleta seletiva de recicláveis vêm sendo desenvolvidos em várias esferas do poder público. Já que muitos artigos abordam a complexidade operacional e econômica da coleta seletiva operada por catadores, resolvemos destacar aqui a importância da cooperação para o sucesso deste empreendimento:

 

1)     cooperação entre os diversos setores da Prefeitura (Planejamento, Limpeza Urbana, Bem-Estar Social, Educação, etc.)

2)     cooperação entre os catadores, inicialmente resistentes à organização grupal, acostumados à “independência” e a verem outros catadores como concorrentes e

3)     cooperação da população, na separação de resíduos recicláveis limpos do restante do lixo.

Com esses pressupostos, e buscando a sustentabilidade do programa face a mudanças político-administrativas, apresentamos algumas ações da implantação de um programa de coleta seletiva e de uma associação de catadores, desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas-IPT* junto à Prefeitura de Registro, SP:

 

1) Conversas individuais com os departamentos da Prefeitura, para levantar a compreensão do problema. Diferentes atores percebem o lixo e a pobreza segundo sua contribuição para a geração desses problemas e sua vulnerabilidade às conseqüências dos mesmos.

2) Sessão de planejamento participativo, com os setores acima mencionados, alguns catadores e técnicos do IPT; com a premissa de que as pessoas aderem mais àquilo que ajudam a construir, esta atividade promoveu a sensibilização dos envolvidos, integração institucional e o estabelecimento de compromissos em torno de um projeto coletivo. Foi criado, assim, o Comitê Gestor de Resíduos Sólidos de Registro, que se reuniu semanalmente para encaminhar a operacionalização da coleta seletiva e da cooperativa.

3) Qualificação de educadores ambientais para o programa, pois o trabalho deve ser realizado por profissionais capacitados.

4) Curso para os catadores, sobre cooperativismo e gestão de negócios, saúde e segurança, triagem e beneficiamento de materiais para reuso, reciclagem e compostagem, etc. Os jogos utilizados criaram ambiente de confiança, sistematizaram saberes acumulados e facilitaram a compreensão dos processos vividos em cooperativas. Durante o curso os catadores perceberam a importância de seu trabalho. A auto-estima também aumentou com a descoberta de habilidades pessoais para pintura, jardinagem, marcenaria, etc. durante o mutirão que transformou em galpão de triagem uma casa cedida pela Prefeitura. E, no lançamento do programa de coleta seletiva, aqueles que mal conseguiam “se olharem nos olhos” estavam no palanque incentivando a população a separar seus recicláveis.

 

5) Oficinas de sensibilização da comunidade e encontros com professores, focando aspectos pedagógicos de uma abordagem interdisciplinar da questão do lixo, no contexto do consumo responsável e sustentável; a metodologia adotada contribuiu para motivar, e não apenas conscientizar, fortalecendo o sentido de participação e solidariedade.

 

Sob o aspecto sócio-econômico, o trabalho resultou um sistema de coleta seletiva, ainda em expansão, que recolhe cerca de 20 t/mês de recicláveis e beneficia 22 ex-catadores, atualmente integrantes de uma associação. Cada um recebe cerca de R$ 250,00/mês, contra os R$ 90,00 antes garimpados no lixão. Sob os aspectos ambiental, educativo e de cidadania, os resultados são incomensuráveis.

* Este projeto foi realizado em 2001-2003, visando subsidiar a elaboração de um guia de orientação sobre cooperativas de catadores de recicláveis, encomendado ao IPT pelo Serviço de Apoio à Pequena e Micro Empresa-SEBRAE. Coordenada por Roberto Lajolo, a equipe foi integrada, dentre outros técnicos, por Zilda Nilza Baptista, pesquisadora do IPT na Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas, e Patrícia Blauth, bióloga, educadora ambiental e consultora do IPT, autoras deste artigo.

Patricia Blauth

Publicado na revista Revista Jogos Cooperativos, nº4, Ano II, 2003

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