Acabando com o lixo ... pelo começo

            A destinação do lixo é um dos maiores problemas das cidades. Do lixo que chega a ser coletado no Brasil, mais de 75% é despejado em lixões, onde não recebe nenhum tratamento que diminua seu impacto no ambiente. Aí gera poluição do solo, da água subterrânea e do ar, degrada a paisagem e atrai uma população enorme excluída do mercado de trabalho - estima-se que um milhão de pessoas vivam da catação de resíduos nas ruas e nos lixões brasileiros! Na cidade de São Paulo, que não possui lixões "oficiais", mas aterros sanitários, o problema persiste. Considerando a lenta degradação (lenta, mesmo!) dos resíduos, o lixo vai ocupando rapidamente todo o espaço disponível. Em pouco tempo não caberá mais lixo nos nossos dois aterros!! E a cidade não possui muitas áreas disponíveis onde despejar o lixo gerado – mais de 1 kg por pessoa por dia!

            O que fazer, então, com tanto lixo? Se o observarmos atentamente, veremos que é basicamente um conjunto de coisas boas no lugar errado. Neste sentido, aumentam as iniciativas de separação de resíduos para reciclagem e/ou compostagem, ou seja, alternativas que tratam os resíduos não mais como lixo, mas como matéria-prima passível de recuperação. Programas de coleta seletiva, do poder público e de entidades da sociedade civil, inclusive de cooperativas de catadores (cada vez mais organizadas no país), vem contribuindo sobremaneira para diminuir o lixo, com benefícios ambientais, sociais, educativos e econômicos.

            Reciclar resíduos, porém, é como “limpar o leite derramado”, uma tentativa de devolver ao ciclo produtivo recursos que extraímos do ambiente, muitas vezes de modo excessivo e irracional. Além disso, convém lembrar que a reciclagem envolve processos industriais, que consomem água e energia, e também poluem. Sem contar que muitos materiais descartados não são técnica ou comercialmente recicláveis no país. O que podemos fazer, por exemplo, com isopor?

            Além de pensarmos num fim para o lixo, precisamos considerar, seriamente, seu começo. Isto é: de onde vem tanto lixo? Tudo o que usamos é realmente necessário? Documentos “ambientais”, como a Agenda 21, apontam que a diminuição da quantidade de lixo depende da adoção de alguns passos básicos – os 3Rs - na seguinte ordem: 1) redução no consumo e no desperdício, 2) reutilização de produtos e (por último) 3) reciclagem de materiais.

            Reduzir o consumo – evitar a produção de lixo – certamente não é fácil na nossa sociedade urbano-industrial, em que o "avanço" tecnológico, a propaganda e fundamentalmente, a desagregação das relações familiares e comunitárias contribuem para um estilo de vida fortemente consumista. Mas este desafio deverá ser enfrentado se quisermos uma sociedade efetivamente sustentável, num planeta com recursos preciosos e finitos. Pois, como me disseram uma vez: "reciclar é pedir desculpas à natureza, enquanto reduzir é não ofender em primeiro lugar."

Patricia Blauth

Publicado na Revista E, do SESC São Paulo, em dezembro de 2001

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